Duas forças ao mesmo tempo
- 1O mínimo cresceu depressa.Passou de 600 € em 2019 para 870 € em 2025 e equivalia, nesse ano, a 91% do salário mediano no universo analisado pelo Banco de Portugal.
- 2Os salários acima dele não se afastaram ao mesmo ritmo.A desigualdade salarial diminuiu e a distribuição ficou mais concentrada junto do mínimo.
- 3O centro da distribuição continua baixo.Cada hora de trabalho produz cerca de dois terços da média europeia.
870 euros e a mediana: porque interessa
Em 2025, a remuneração mínima mensal garantida em Portugal era de 870 euros.2 Segundo o Banco de Portugal, correspondia a 91% do salário base mediano dos trabalhadores do setor privado.1
Se o mínimo é 91% da mediana, a mediana rondará os 950 a 960 euros. Entre o piso salarial definido por lei e o centro da distribuição ficam menos de 100 euros.
O número, por si só, não permite concluir que aumentar o salário mínimo seja um problema. Também não mostra que os restantes salários estão baixos apenas porque o mínimo subiu.
Surge num período em que a desigualdade salarial diminuiu, mas revela também uma concentração crescente dos salários na parte inferior da distribuição. É o que se chama compressão salarial.
Este artigo procura perceber porque é que o salário mínimo se aproximou tanto do salário mediano. Os dados apontam para duas forças: o salário mínimo cresceu rapidamente e os salários acima dele não se afastaram ao mesmo ritmo.
O mínimo equivale a 91% da mediana.
Salário médio e salário mediano não são a mesma coisa
Quando se fala de salários em Portugal, a referência mais comum é o salário médio. A média, porém, pode ser puxada para cima por um pequeno número de salários muito elevados.
A mediana responde a outra pergunta. Se ordenarmos todos os trabalhadores pelo salário que recebem, a mediana é o valor que fica exatamente no centro: metade recebe menos, metade recebe mais. Por isso descreve melhor o que ganha um trabalhador típico.
Nos dados que o Banco de Portugal usa para 2025, trata-se do salário base de trabalhadores por conta de outrem do setor privado abrangidos pelos microdados da Segurança Social.1 Os 91% não descrevem todos os portugueses: o universo e o conceito de remuneração são mais específicos. Mostram, ainda assim, uma aproximação muito grande entre o piso salarial e o centro da distribuição do setor privado.
De 87% para 91% em seis anos
O indicador que compara o salário mínimo com o salário mediano chama-se, muitas vezes, índice de Kaitz. Na análise do Banco de Portugal com microdados da Segurança Social, passou de cerca de 87% em 2019 para 91% em 2025.1
A subida não aconteceu porque os outros salários deixaram de crescer. Em 2025, o salário mínimo aumentou 6,1%, de 820 para 870 euros.2 Os restantes salários também subiram, mas menos: no primeiro decil, o salário base cresceu em média mais de 8%; no último, perto de 5%.1
O índice reflete vários anos seguidos em que os salários da parte de baixo da distribuição cresceram mais depressa.
O mesmo Boletim mostra a outra face desta evolução. Em 2010, um trabalhador no percentil 90 ganhava 3,4 vezes o salário de um trabalhador no percentil 10. Em 2025, ganhava 2,4 vezes. A distância entre a mediana e o percentil 10 passou de 1,4 para 1,1 vezes.1
Para quem estava na base, é uma melhoria. Significa também que as diferenças entre níveis de remuneração encolheram, e é isso que torna a compressão salarial visível.
91% e 69%: dois números que medem coisas diferentes
Na comparação europeia do Eurostat, Portugal aparece com outro valor: 69% em 2024.3 À primeira vista, os dois números parecem incompatíveis. Resultam, na verdade, de fontes e universos diferentes.
Microdados da Segurança Social · setor privado, incluindo empresas muito pequenas
Structure of Earnings Survey · só empresas com 10 ou mais trabalhadores
→ Ambos podem estar corretos: medem universos diferentes.
Fontes: Banco de Portugal, Boletim Económico de junho de 2026 (Caixa 5); Eurostat, Minimum wage statistics (Figura 3).Os 91% do Banco de Portugal baseiam-se nos microdados administrativos da Segurança Social e abrangem praticamente todos os trabalhadores por conta de outrem do setor privado considerados na análise, incluindo os de empresas muito pequenas.1
A comparação harmonizada do Eurostat usa o Structure of Earnings Survey e uma metodologia comum a todos os países. O universo não é o mesmo: exclui, nomeadamente, as empresas com menos de dez trabalhadores.3 Em Portugal, onde as micro e pequenas empresas pesam muito no emprego e tendem a pagar menos, essa exclusão faz diferença.
Os dois indicadores servem para perguntas diferentes. Os 91% ajudam a perceber a distribuição salarial no setor privado português. Os 69% permitem uma comparação internacional mais consistente.
Mesmo nessa segunda métrica, Portugal destaca-se. Na comparação do Eurostat para 2024, tinha o rácio mais elevado entre salário mínimo e salário mediano dos países analisados, à frente da Polónia e da França.3 A diferença de método baixa bastante o valor, mas não altera a posição de Portugal.
O que significa compressão salarial
Uma distribuição salarial mais comprimida pode significar que quem ganha menos se está a aproximar dos restantes. Em Portugal, isso aconteceu em parte: os aumentos do salário mínimo estão associados à subida dos rendimentos na base da distribuição e à redução da desigualdade salarial. Para quem recebia os salários mais baixos, é uma melhoria real.
Se os salários imediatamente acima do mínimo não crescerem ao mesmo ritmo, encolhe a diferença associada à experiência, à responsabilidade, às qualificações ou à progressão na carreira.
É esta a preocupação do Banco de Portugal. A instituição não conclui que um salário mínimo elevado destrua necessariamente emprego ou produtividade. Alerta para a necessidade de avaliar os efeitos de uma distribuição cada vez mais concentrada em torno do mínimo, incluindo nos incentivos dos trabalhadores e na dinâmica da produtividade.1
A OCDE faz uma recomendação semelhante: dado o peso elevado do salário mínimo face ao mediano, os seus efeitos sobre o emprego devem continuar a ser acompanhados e avaliados.4
A compressão salarial não é, automaticamente, um problema económico. Também não deve ser ignorada.
O centro da distribuição salarial continua baixo
O salário mínimo pode estar muito perto do mediano não só porque subiu depressa, mas também porque o centro da distribuição salarial portuguesa continua baixo. O Banco de Portugal, a Comissão Europeia e a OCDE apontam vários fatores que ajudam a explicar porquê.
Produtividade
Em 2025, a produtividade do trabalho por hora em Portugal, ajustada às diferenças de poder de compra, correspondia a cerca de 67% da média da União Europeia.5
Produtividade não mede esforço. Mede o valor económico produzido por unidade de trabalho. Um trabalhador com melhores máquinas, melhor software ou processos mais eficientes, ou numa empresa que vende produtos de maior valor, pode produzir muito mais na mesma hora.
Capital e investimento
O Banco de Portugal coloca Portugal entre os países europeus com menor intensidade capitalística, ou seja, com menos capital disponível por trabalhador: equipamentos, máquinas, infraestruturas e software.6
A Comissão Europeia identifica também investimento insuficiente e dificuldades das empresas em crescer e em financiar-se com capital. Em 2024, o investimento em venture capital e private equity representava cerca de 0,19% do PIB em Portugal, contra 0,55% na média da União Europeia.7
Estrutura empresarial
Segundo a OCDE, as microempresas, com até nove trabalhadores, concentram cerca de 39% do emprego empresarial em Portugal. Somando as empresas com menos de 50 trabalhadores, a proporção aproxima-se dos 60%.4
Uma empresa pequena não é necessariamente pouco produtiva. Em Portugal, porém, a diferença de produtividade entre empresas pequenas e de maior dimensão é grande, e a OCDE aponta a dificuldade das empresas em ganhar escala como um dos obstáculos ao crescimento da produtividade.
Empresas com menos de 50 pessoas: cerca de 60% do emprego.
Fonte: OCDE, Economic Survey Portugal 2026, cap. 1 (p. 48 e Figura 1.22), com dados de 2023 do setor empresarial excluindo atividades financeiras. * Valor aproximado por diferença entre 100% e as categorias publicadas; a OCDE não o indica em texto. A produtividade por dimensão aparece apenas no gráfico da OCDE, sem valores publicados; a OCDE conclui que micro e pequenas empresas são «marcadamente menos produtivas», o que descreve uma associação e não prova uma causa.Qualificações, gestão e instituições
As qualificações da população melhoraram muito nas últimas décadas, mas continuam a existir diferenças face a várias economias europeias, por exemplo nas competências digitais e na formação ao longo da vida. A OCDE chama também a atenção para as qualificações dos gestores das pequenas e médias empresas.4
A Comissão Europeia e a OCDE identificam ainda obstáculos administrativos, processos de licenciamento, o funcionamento dos tribunais administrativos e fiscais e os custos de alguns processos de despedimento como fatores que podem travar o investimento e o crescimento das empresas.74 Daqui não se segue que reduzir impostos, regulamentação ou proteção laboral faça subir automaticamente os salários. Estas instituições são um dos fatores que influenciam a produtividade.
Em 2025, a remuneração dos trabalhadores por conta de outrem representava cerca de 48,2% do PIB português e 47,8% na média da União Europeia. O excedente bruto de exploração e rendimento misto pesava 38,6%, contra 41,0%. Os impostos sobre a produção e importações, líquidos de subsídios, 13,3%, contra 11,2%.8 Estes valores não dizem que o resto “fica para os patrões” ou “para o Estado”: o rendimento misto inclui trabalho por conta própria, e aqueles impostos não são a carga fiscal total. Indicam apenas que a parte destinada a quem trabalha por conta de outrem não é inferior à média europeia, numa economia que produz menos valor por hora.
- Remuneração dos trabalhadores por conta de outrem
- Excedente bruto de exploração e rendimento misto
- Impostos sobre a produção e importações, líquidos de subsídios
A OCDE considera que a carga fiscal sobre o trabalho é relativamente elevada nos salários baixos e médios, sobretudo em torno do salário mínimo, e recomenda uma composição fiscal que reduza os custos sobre os rendimentos mais baixos.4 A fiscalidade não explica, sozinha, a proximidade entre mínimo e mediana: antes de qualquer imposto, a distribuição dos salários base já está fortemente comprimida.
O salário mínimo é fixado por decisão política, depois de ouvidos os parceiros sociais.6 O Estado influencia também as condições que determinam os restantes salários: educação e formação, impostos, obstáculos ao investimento, justiça e administração pública, inovação, regras laborais e negociação coletiva. Nenhuma destas políticas garante, isoladamente, salários mais altos, e há escolhas legítimas sobre como equilibrar proteção dos trabalhadores, competitividade, receitas públicas e crescimento.
O que acontece quando o mínimo sobe
O salário mínimo tem vários objetivos possíveis: proteger quem ganha menos, aumentar rendimentos, reduzir a desigualdade e fixar um piso para o mercado de trabalho. Em Portugal, os aumentos dos últimos anos tiveram um efeito visível na parte inferior da distribuição, que o Banco de Portugal associa a uma redução significativa da desigualdade salarial.1
Quanto mais o mínimo se aproxima do mediano, mais importa acompanhar os efeitos sobre o emprego, a progressão salarial, a contratação e a produtividade.
A evidência não sustenta regras simples, nem a de que subir o salário mínimo reduz o emprego, nem a de que subir o salário mínimo não tem qualquer custo. Os efeitos dependem da dimensão do aumento, do nível de partida, da produtividade das empresas, do estado do mercado de trabalho e da capacidade das empresas para absorver custos através de margens, preços, produtividade ou reorganização.
Os 91% referem-se a 2025, quando o salário mínimo era de 870 euros. Desde 1 de janeiro de 2026, a remuneração mínima mensal garantida no território continental é de 920 euros, mais 5,7%.9 Os 91% não se aplicam automaticamente a 2026: para calcular o novo rácio é preciso conhecer o salário mediano de 2026, com a mesma metodologia e o mesmo universo.
O que os dados permitem concluir
O que sabemos. O salário mínimo subiu de 600 para 870 euros entre 2019 e 2025, e os salários na base da distribuição cresceram mais depressa do que os restantes. A desigualdade salarial caiu e o mínimo passou de 87% para 91% do salário base mediano no universo do Banco de Portugal. Na metodologia harmonizada do Eurostat, Portugal tem o rácio mais alto dos países analisados.
O que os dados sugerem. A proximidade entre mínimo e mediana é consistente com duas forças ao mesmo tempo: um mínimo que cresceu depressa e um centro da distribuição que avançou mais devagar. Esse centro baixo coincide com uma produtividade por hora de cerca de dois terços da média europeia, que as instituições citadas associam a menos capital por trabalhador, a muito emprego em empresas pequenas, a diferenças de qualificações e gestão e ao funcionamento das instituições.
O que ainda não é possível determinar. Os dados públicos não permitem isolar quanto da compressão se deve ao salário mínimo e quanto a outros fatores, nem medir já os efeitos de longo prazo sobre o emprego e a progressão na carreira. O rácio de 2026, com o mínimo nos 920 euros, ainda não é conhecido.
O salário mínimo consegue elevar o piso da distribuição. A evolução sustentável dos salários acima do mínimo está, por isso, fortemente ligada à capacidade da economia portuguesa para aumentar a produtividade e o valor produzido por trabalhador.
Fontes e limites
Os 91% (2025) e os 69% (2024) medem universos diferentes e não devem ser comparados entre si: o primeiro usa os microdados da Segurança Social, com a mediana do salário equivalente a tempo completo do setor privado; o segundo usa o Structure of Earnings Survey de 2022, extrapolado para 2024, só para empresas com 10 ou mais trabalhadores. O Banco de Portugal publica o rácio de 2025, mas não o salário mediano em euros: os valores em euros da mediana mostrados neste artigo são um cálculo do Sem Ruído a partir desse rácio (870 € ÷ 0,91 ≈ 956 €; entre 951 € e 961 €, porque o rácio está arredondado). A percentagem de emprego nas pequenas empresas (10 a 49 pessoas) é aproximada por diferença. Os valores de 2025 das contas nacionais e da produtividade são provisórios. A associação entre dimensão das empresas e produtividade não prova, por si só, uma relação de causa.
- Banco de Portugal, Boletim Económico, junho de 2026Caixa 5, “A distribuição dos salários dos trabalhadores por conta de outrem”, pp. 32 a 35: variação por decis (Gráfico C5.2), rácios entre percentis (C5.3) e índice de Kaitz (nota 26). ↗
- DGERT, Evolução da retribuição mínima mensal garantidaValores e diplomas de 2019 a 2026, incluindo o Decreto-Lei n.º 112/2024 (870 €). ↗
- Eurostat, Minimum wage statisticsFigura 3, salário mínimo em % do salário mediano bruto, 2024; dados extraídos em julho de 2026. ↗
- OCDE, Economic Surveys: Portugal 2026Janeiro de 2026; cap. 1, p. 48 e Figura 1.22 (dimensão das empresas), pp. 41 e 44 (carga fiscal sobre o trabalho), p. 50 (gestores), p. 70 (despedimentos) e p. 80 (salário mínimo). ↗
- Eurostat, Produtividade do trabalho por pessoa empregada e por hora trabalhadaDataset tesem160, por hora trabalhada (UE27_2020 = 100). ↗
- Banco de Portugal, Boletim Económico, março de 2025Caixa 4, intensidade capitalística na UE (Gráfico C4.4); Políticas em análise, “A retribuição mínima mensal garantida em Portugal”. ↗
- Comissão Europeia, 2026 Country Report: PortugalSWD(2026) 222, pp. 10 e 11: capital de risco e private equity, escala das empresas, licenciamento e tribunais administrativos e fiscais. ↗
- Eurostat, PIB e principais componentesDataset nama_10_gdp: D1, B2A3G e D2X3 em % de B1GQ, 2025. ↗
- Decreto-Lei n.º 139/2025, de 29 de dezembroRetribuição mínima mensal garantida de 920 € a partir de 1 de janeiro de 2026, no território continental (art. 2.º). ↗